A maioria dos iniciantes que eu ensino tem o mesmo problema: não é falta de tempo, é falta de direção. Eles se sentam, tocam algumas coisas que já sabem, tentam algo de um vídeo, empacam, e vinte minutos depois não sabem bem o que praticaram.
Uma rotina curta resolve isso. Você sempre sabe o que vem a seguir, cada parte do jazz recebe um pouco de atenção todo dia, e pequenos passos diários se somam mais rápido do que você imagina. Esta é a rotina que eu passo para os alunos nos primeiros meses.
A rotina num relance
| Minutos | Bloco | O que treina |
|---|---|---|
| 0–3 | Arpejos de tétrades | conhecimento dos acordes, dedos |
| 3–8 | ii–V–I com notas-guia | a mão esquerda, a progressão mais comum |
| 8–11 | Um ritmo na mão esquerda | comping, tempo |
| 11–16 | Improvisar num blues | ritmo, fraseado, coragem |
| 16–20 | Uma música + audição | repertório, estilo |
Use um timer. Quando ele tocar, passe para o próximo bloco, mesmo no meio de alguma coisa. A rotina funciona porque é curta e porque você a faz todos os dias.
Bloco 1 (3 minutos): arpejos de tétrades
Escolha a fundamental do dia e toque as quatro tétrades (acordes de sétima) básicas dela em arpejo, subindo e descendo: maj7, 7, m7 e m7♭5. Diga os nomes enquanto toca (“C, E, G, B”). Isso constrói o conhecimento dos acordes de que todos os outros blocos dependem.
Cmaj7: C–E–G–B · C7: C–E–G–B♭ · Cm7: C–E♭–G–B♭ · Cm7♭5: C–E♭–G♭–B♭
Bloco 2 (5 minutos): o ii–V–I com notas-guia
O ii–V–I está em quase todo standard. Toque-o na mão esquerda com só duas notas, as notas-guia (a 3ª e a 7ª): Dm7 como 3–7 (F–C), G7 como 7–3 (F–B), Cmaj7 como 3–7 (E–B). O baixista toca a linha de baixo, então você não precisa da fundamental. Três tonalidades por dia. Se as notas-guia são novidade para você, leia antes a minha aula sobre notas-guia.
Dm7: F–C · G7: F–B · Cmaj7: E–B
Ouça: a cada troca, uma nota fica e a outra anda um semitom. Depois cante a linha que se move (C, B, B) enquanto toca. Cantar é o jeito mais rápido de ligar o que você ouve ao que você toca.
Quando isso estiver fácil, passe para os voicings sem fundamental do exercício de ii–V–I, mas mantenha os mesmos cinco minutos.
Bloco 3 (3 minutos): dê um ritmo à mão esquerda
No jazz, a mão esquerda é uma instrumentista de ritmo. Toque o mesmo ii–V–I nas tonalidades do dia, agora no ritmo Charleston: um acorde curto no tempo 1 e outro no “e” do 2. Mantenha curto e exatamente no tempo.
Dm7: F–C · G7: F–B · Cmaj7: E–B
Quando o Charleston estiver fácil, experimente os outros ritmos da minha aula sobre como fazer comping: um acorde longo por compasso, tempos 1 e 3, a antecipação. E lembre-se: você não precisa tocar todos os acordes.
Bloco 4 (5 minutos): improvise num blues
Todo dia, improvise, mesmo que pareça desajeitado. O blues de 12 compassos em F é o melhor lugar: três acordes e uma escala que funciona sobre todos eles, a escala blues de F (F, A♭, B♭, B, C, E♭). Segure as notas-guia na mão esquerda, um acorde longo por compasso, e toque frases curtas com pausas longas na direita.
F7: A–E♭ · B♭7: A♭–D · F7: A–E♭ · B♭7: A♭–D · F7: A–E♭ · C7: B♭–E · B♭7: A♭–D · F7: A–E♭ · C7: B♭–E
Dê a si mesmo uma única regra por dia: hoje só três notas; amanhã só contratempos; depois de amanhã, cada frase começa no tempo 2. Limites deixam você criativo, e você vai se ouvir melhorar semana a semana.
Bloco 5 (4 minutos): uma música, e audição
Escolha uma música e fique com ela por algumas semanas. Para iniciantes, a primeira música deve ser um blues: 12 compassos, só três acordes e uma melodia curta que dá para tirar de ouvido. “Blue Monk” é perfeita. Mais duas ótimas escolhas: “C Jam Blues”, cuja melodia usa só duas notas, e “Bags’ Groove”, construída sobre um único riff curto, com sabor de blues. Todo dia, toque a forma uma vez: primeiro só a mão esquerda, depois melodia e mão esquerda juntas.
Passe o último minuto ouvindo uma gravação da mesma música e acompanhe a forma enquanto ouve. Quanto mais versões você conhecer, melhor vai tocá-la.
Quando o blues estiver fácil, escolha um standard com mais acordes. “Autumn Leaves” é o próximo passo que eu dou com os alunos.
Um plano semanal para as 12 tonalidades
Os blocos 1 a 3 mudam de tonalidade todo dia. Em uma semana você cobre as doze:
| Dia | Tonalidades |
|---|---|
| Segunda | C, F |
| Terça | B♭, E♭ |
| Quarta | A♭, D♭ |
| Quinta | G♭, B |
| Sexta | E, A |
| Sábado | D, G |
| Domingo | as suas duas tonalidades mais difíceis |
Todo exemplo acima tem um menu de tonalidade e um botão Todas as 12 tonalidades, para você ouvir as tonalidades do dia antes de tocá-las.
Como criar o hábito
- Mesmo horário todo dia. Prenda a rotina a algo que você já faz: depois do café, antes do jantar.
- Metrônomo ou playback, sempre. Devagar e constante vale mais do que rápido e parando. 60–80 é um bom andamento por meses.
- Grave cada tentativa. O celular basta. Depois ouça: como ouvinte, você percebe coisas que escapam enquanto toca, e aprende ainda mais. Ouvir a própria gravação é o professor mais honesto.
- Escreva uma linha depois de cada sessão: o que foi bem, o que corrigir amanhã.
- Dias curtos contam. Num dia corrido, faça só os blocos 2 e 4. Dez minutos são muito melhores do que nada.
Perguntas dos alunos
20 minutos por dia bastam mesmo?
Nos primeiros meses, sim, se for todo dia e com atenção. Muitos alunos praticam mais do que isso e progridem menos, porque repetem o que já sabem. Quando vinte minutos ficarem fáceis, acrescente uma segunda rodada do bloco 4 ou uma segunda música.
Devo aprender escalas primeiro?
Aprenda acordes primeiro. No jazz, as escalas nascem dos acordes: quando você conhece as notas do acorde, as notas da escala são os passos entre elas. Os arpejos do bloco 1 são o seu estudo de escalas por enquanto.
Venho do piano clássico. O que muda?
Três coisas: você vai ler cifras em vez de cada nota, vai tocar as colcheias com swing e vai improvisar. A rotina treina as três. Sua técnica vai ajudar; tenha paciência com o ritmo.
Quanto tempo até eu tocar uma música inteira?
Com esta rotina, a maioria dos meus alunos iniciantes toca uma versão simples da primeira música, mão esquerda e melodia, em poucas semanas, e improvisa um chorus sobre ela algumas semanas depois. Cada pessoa é diferente; a prática regular importa muito mais do que o talento.
Para ouvir
Blues simples para aprender primeiro, e os discos para aprender com eles.
- “Blue Monk”, Thelonious Monk · Thelonious Monk Trio (1954)
- “C Jam Blues”, Oscar Peterson Trio · Night Train (1962)
- “Bags’ Groove”, Miles Davis · Bags’ Groove (1954): Thelonious Monk, piano
- “Bags’ Groove”, Modern Jazz Quartet · The Last Concert (1974): Milt Jackson, vibrafone; John Lewis, piano
- “Straight, No Chaser”, Thelonious Monk · Straight, No Chaser (1967)
- “Blues by Five”, Miles Davis Quintet · Cookin’ (1956): Red Garland, piano
- “Blue Seven”, Sonny Rollins · Saxophone Colossus (1956): Tommy Flanagan, piano
- “Blue ’n’ Boogie”, Miles Davis · Walkin’ (1954): Horace Silver, piano
- “Bessie’s Blues”, John Coltrane · Crescent (1964): McCoy Tyner, piano
- “Freddie Freeloader”, Miles Davis · Kind of Blue (1959): Wynton Kelly, piano