Quando meus alunos começam no piano jazz, a maioria já conhece as tríades. Aí eles abrem uma partitura cifrada (lead sheet), veem Dm7 – G7 – Cmaj7, tocam as quatro notas de cada acorde com a mão esquerda, e o resultado soa pesado, embolado e nada parecido com os discos.
A solução é mais simples do que parece: toque menos notas. Duas bastam.
As duas notas que importam
Todo acorde de sétima tem uma 3ª e uma 7ª, e essas duas notas dizem ao ouvido quase tudo:
- a 3ª diz se é maior ou menor;
- a 7ª diz que tipo de acorde de sétima é: maj7, 7 ou m7.
Essas duas notas se chamam notas-guia. Toque só elas na mão esquerda e o acorde já está lá. E a fundamental? Numa banda, o baixista toca a linha de baixo, e as fundamentais fazem parte dela. A 5ª não acrescenta quase nada. Então sua mão esquerda fica livre para tocar só a cor do acorde.
Ouça três acordes sobre C. O baixo é o mesmo; só as duas notas mudam:
Cmaj7: E–B · C7: E–B♭ · Cm7: E♭–B♭
Duas maneiras de tocá-las: 3–7 e 7–3
Você pode tocar as duas notas em duas ordens:
- 3–7: a 3ª embaixo, a 7ª em cima (C7: E–B♭);
- 7–3: a 7ª embaixo, a 3ª em cima (C7: B♭–E).
C7: E–B♭ · C7: B♭–E
Por que aprender as duas? Porque é alternando entre elas que a mão fica no mesmo lugar enquanto os acordes mudam. Escolha sempre a que estiver mais perto do acorde anterior.
O ii–V–I: uma nota anda um semitom
A progressão mais comum do jazz é o ii–V–I: Dm7 – G7 – Cmaj7 em C. Com duas notas, fica assim:
| Acorde | Ordem | Notas em C |
|---|---|---|
| Dm7 | 3–7 | F, C |
| G7 | 7–3 | F, B |
| Cmaj7 | 3–7 | E, B |
Acompanhe as notas. O F do Dm7 fica e vira a 7ª do G7. O C desce um semitom para B, a 3ª do G7. Depois o F desce um semitom para E, e o B fica. A cada troca, uma nota fica e a outra anda um semitom. Esse movimento mínimo é o esqueleto da harmonia do jazz, e as duas notas o colocam bem debaixo dos seus dedos. Clique em Todas as 12 tonalidades para ouvi-lo percorrer o ciclo de quartas:
Dm7: F–C · G7: F–B · Cmaj7: E–B
Dê um ritmo à mão esquerda
Um acorde segurado por um compasso inteiro soa como um hino de igreja. Os pianistas de jazz tocam a mão esquerda curta e ritmada. O primeiro ritmo a aprender é o Charleston: um acorde curto no tempo 1 e outro no “e” do 2. Aqui estão as notas-guia no ritmo Charleston, sob uma melodia curta que eu escrevi para esta aula:
Dm7: F–C · G7: F–B · Cmaj7: E–B
Pratique primeiro a mão esquerda sozinha, contando “1 e 2 e 3 e 4 e”. Depois toque a melodia com a mão direita. Quando as duas mãos estiverem independentes, você estará fazendo o próprio acompanhamento.
Duas notas num blues de 12 compassos
Um blues em F usa três acordes: F7, B♭7 e C7. A mão esquerda toca só a 3ª e a 7ª de cada acorde, e o baixista toca a linha de baixo:
- F7: A – E♭ (3–7)
- B♭7: A♭ – D (7–3)
- C7: B♭ – E (7–3)
Agora veja o que acontece quando os acordes mudam. De F7 para B♭7, o A desce um semitom para A♭, e o E♭ desce um semitom para D. A 3ª do F7 vira a 7ª do B♭7, e a 7ª do F7 vira a 3ª do B♭7. De F7 para C7 acontece o mesmo, para cima: o A sobe um semitom para B♭, e o E♭ sobe um semitom para E.
Esse movimento por semitom é o coração da condução de vozes no jazz. Quando os acordes andam por 4ª ou 5ª, como no blues e em todo ii–V–I, a 3ª de um acorde fica a um semitom da 7ª do seguinte. Então a mão quase não se mexe, e os acordes soam ligados, como vozes cantando. O único movimento maior é de C7 para B♭7 (compassos 9–10), onde as duas notas descem um tom. O blues inteiro cabe numa só posição da mão.
F7: A–E♭ · B♭7: A♭–D · F7: A–E♭ · B♭7: A♭–D · F7: A–E♭ · C7: B♭–E · B♭7: A♭–D · F7: A–E♭ · C7: B♭–E
Como praticar
Uma rotina curta e regular funciona muito melhor do que uma sessão longa por semana. Dez minutos por dia bastam:
- Dois minutos: três acordes sobre uma fundamental. Cmaj7, C7, Cm7, depois o mesmo sobre F, B♭ e assim por diante. Diga as notas em voz alta.
- Quatro minutos: o ii–V–I em três tonalidades. Hoje C, F e B♭; amanhã E♭, A♭ e D♭; depois G♭, B, E; depois A, D, G. Quatro dias, todas as 12 tonalidades.
- Dois minutos: o ritmo Charleston. O mesmo ii–V–I com metrônomo ou playback a 80, mão esquerda curta.
- Dois minutos: um chorus do blues em F, só a mão esquerda, depois com uma linha simples na mão direita.
Vá devagar o bastante para nunca parar. Um ii–V–I tocado no tempo a 60 ensina mais do que um tocado a 120 com pausas.
Os erros que eu mais ouço
- Tocar grave demais. Lá embaixo, duas notas viram um ronco. Mantenha a nota de baixo mais ou menos entre o D e o A♯ abaixo do dó central, onde ficam os exemplos desta página.
- Pensar em formatos em vez de notas. Saiba os nomes: “No G7, B é a 3ª e F é a 7ª.” Se você só lembrar formatos, vai se perder numa tonalidade nova.
- Nunca sair de C. A maioria das músicas de verdade está em F, B♭ e E♭. Use os botões Todas as 12 tonalidades acima.
- Segurar os acordes. Mantenha a mão esquerda curta e ritmada.
Perguntas dos alunos
E se eu tocar sozinho, sem baixista?
As duas notas continuam funcionando, e o ouvido completa o resto. Quando quiser um som mais cheio, acrescente a fundamental embaixo. Isso é um passo posterior; primeiro faça as duas notas andarem com fluidez.
Qual mão toca as notas-guia?
A mão esquerda, para que a direita fique livre para a melodia ou um solo.
Posso acrescentar mais notas?
Pode, mais tarde. A 9ª, a 13ª e as outras cores ficam por cima das notas-guia. Notas de cor só soam bem sobre um esqueleto sólido.
As notas-guia funcionam em qualquer música?
Em quase todo standard. As mesmas duas notas funcionam numa balada, numa bossa nova ou num bebop rápido; só o ritmo muda.
O próximo passo
Quando as duas notas estiverem fáceis nas 12 tonalidades, experimente cinco ritmos de comping para a mão esquerda e toque uma música inteira: “Autumn Leaves” é feita quase só de ii–V–Is. Depois vêm o exercício de voicings de ii–V–I e os voicings sem fundamental na mão esquerda, que dão o som do piano jazz moderno.
Para ouvir
Ouça a mão esquerda do pianista por trás dos solistas: acordes curtos e simples, que deixam a música respirar.
- “Tenor Madness”, Sonny Rollins · Tenor Madness (1956): Red Garland, piano
- “St. Thomas”, Sonny Rollins · Saxophone Colossus (1956): Tommy Flanagan, piano
- “If I Were a Bell”, Miles Davis Quintet · Relaxin’ (1956): Red Garland, piano
- “Blue Train”, John Coltrane · Blue Train (1957): Kenny Drew, piano
- “All Blues”, Miles Davis · Kind of Blue (1959): Bill Evans, piano
- “Walkin’”, Miles Davis · Walkin’ (1954): Horace Silver, piano
- “Mr. P.C.”, John Coltrane · Giant Steps (1959): Tommy Flanagan, piano
- “Cool Struttin’”, Sonny Clark · Cool Struttin’ (1958): Sonny Clark, piano
- “Tune Up”, Miles Davis Quintet · Cookin’ (1956): Red Garland, piano
- “Soul Station”, Hank Mobley · Soul Station (1960): Wynton Kelly, piano