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Comping · iniciante

Comping com duas notas: as notas-guia

Duas notas na mão esquerda, a 3ª e a 7ª, bastam para soar como jazz. Veja por que elas funcionam, como levá-las de um acorde ao outro e como colocá-las nas mãos nas 12 tonalidades.

Por Dima, pianista de jazz e professor de teoria e harmonia do jazz, mestre em Musicologia · outubro de 2026 · 7 min de leitura

Todos os exemplos desta página tocam: clique em ▶ Tocar, escolha uma tonalidade e veja as teclas acenderem ( mão esquerda, mão direita, melodia, baixo).

Neste artigo
  1. As duas notas que importam
  2. Duas maneiras de tocá-las: 3–7 e 7–3
  3. O ii–V–I: uma nota anda um semitom
  4. Dê um ritmo à mão esquerda
  5. Duas notas num blues de 12 compassos
  6. Como praticar
  7. Os erros que eu mais ouço
  8. Perguntas dos alunos
  9. O próximo passo
  10. Para ouvir
  11. Sobre o autor

Quando meus alunos começam no piano jazz, a maioria já conhece as tríades. Aí eles abrem uma partitura cifrada (lead sheet), veem Dm7 – G7 – Cmaj7, tocam as quatro notas de cada acorde com a mão esquerda, e o resultado soa pesado, embolado e nada parecido com os discos.

A solução é mais simples do que parece: toque menos notas. Duas bastam.

As duas notas que importam

Todo acorde de sétima tem uma 3ª e uma 7ª, e essas duas notas dizem ao ouvido quase tudo:

Essas duas notas se chamam notas-guia. Toque só elas na mão esquerda e o acorde já está lá. E a fundamental? Numa banda, o baixista toca a linha de baixo, e as fundamentais fazem parte dela. A 5ª não acrescenta quase nada. Então sua mão esquerda fica livre para tocar só a cor do acorde.

Ouça três acordes sobre C. O baixo é o mesmo; só as duas notas mudam:

Duas notas, três cores Cmaj7: E–B, C7: E–B♭, Cm7: E♭–B♭. O baixista toca a linha de baixo.

Cmaj7: E–B · C7: E–B♭ · Cm7: E♭–B♭

Leia a cifra pela 3ª e pela 7ªCmaj7 tem 3ª maior e 7ª maior (E–B); C7, 3ª maior e 7ª menor (E–B♭); Cm7, 3ª menor e 7ª menor (E♭–B♭). Quando você ouve essas duas notas, ouve o acorde.

Duas maneiras de tocá-las: 3–7 e 7–3

Você pode tocar as duas notas em duas ordens:

3–7 e 7–3 As mesmas duas notas, invertidas: primeiro com a 3ª embaixo, depois com a 7ª embaixo.

C7: E–B♭ · C7: B♭–E

Por que aprender as duas? Porque é alternando entre elas que a mão fica no mesmo lugar enquanto os acordes mudam. Escolha sempre a que estiver mais perto do acorde anterior.

O ii–V–I: uma nota anda um semitom

A progressão mais comum do jazz é o ii–V–I: Dm7 – G7 – Cmaj7 em C. Com duas notas, fica assim:

AcordeOrdemNotas em C
Dm73–7F, C
G77–3F, B
Cmaj73–7E, B

Acompanhe as notas. O F do Dm7 fica e vira a 7ª do G7. O C desce um semitom para B, a 3ª do G7. Depois o F desce um semitom para E, e o B fica. A cada troca, uma nota fica e a outra anda um semitom. Esse movimento mínimo é o esqueleto da harmonia do jazz, e as duas notas o colocam bem debaixo dos seus dedos. Clique em Todas as 12 tonalidades para ouvi-lo percorrer o ciclo de quartas:

O ii–V–I com duas notas Dm7 3–7 (F–C), G7 7–3 (F–B), Cmaj7 3–7 (E–B): a cada troca de acorde, uma nota anda um semitom.

Dm7: F–C · G7: F–B · Cmaj7: E–B

Um erro comumTocar todos os acordes como 3–7. Aí a mão fica pulando e os semitons desaparecem. Alterne 3–7 e 7–3, para que as notas se movam o mínimo possível.

Dê um ritmo à mão esquerda

Um acorde segurado por um compasso inteiro soa como um hino de igreja. Os pianistas de jazz tocam a mão esquerda curta e ritmada. O primeiro ritmo a aprender é o Charleston: um acorde curto no tempo 1 e outro no “e” do 2. Aqui estão as notas-guia no ritmo Charleston, sob uma melodia curta que eu escrevi para esta aula:

Duas notas sob uma melodia A mão esquerda toca as notas-guia no ritmo Charleston; a mão direita toca uma linha curta original.

Dm7: F–C · G7: F–B · Cmaj7: E–B

Pratique primeiro a mão esquerda sozinha, contando “1 e 2 e 3 e 4 e”. Depois toque a melodia com a mão direita. Quando as duas mãos estiverem independentes, você estará fazendo o próprio acompanhamento.

Duas notas num blues de 12 compassos

Um blues em F usa três acordes: F7, B♭7 e C7. A mão esquerda toca só a 3ª e a 7ª de cada acorde, e o baixista toca a linha de baixo:

Agora veja o que acontece quando os acordes mudam. De F7 para B♭7, o A desce um semitom para A♭, e o E♭ desce um semitom para D. A 3ª do F7 vira a 7ª do B♭7, e a 7ª do F7 vira a 3ª do B♭7. De F7 para C7 acontece o mesmo, para cima: o A sobe um semitom para B♭, e o E♭ sobe um semitom para E.

Esse movimento por semitom é o coração da condução de vozes no jazz. Quando os acordes andam por 4ª ou 5ª, como no blues e em todo ii–V–I, a 3ª de um acorde fica a um semitom da 7ª do seguinte. Então a mão quase não se mexe, e os acordes soam ligados, como vozes cantando. O único movimento maior é de C7 para B♭7 (compassos 9–10), onde as duas notas descem um tom. O blues inteiro cabe numa só posição da mão.

Um blues de 12 compassos com duas notas F7 como 3–7, B♭7 e C7 como 7–3: a mão esquerda anda por semitons; o baixista toca a linha de baixo.

F7: A–E♭ · B♭7: A♭–D · F7: A–E♭ · B♭7: A♭–D · F7: A–E♭ · C7: B♭–E · B♭7: A♭–D · F7: A–E♭ · C7: B♭–E

Como praticar

Uma rotina curta e regular funciona muito melhor do que uma sessão longa por semana. Dez minutos por dia bastam:

  1. Dois minutos: três acordes sobre uma fundamental. Cmaj7, C7, Cm7, depois o mesmo sobre F, B♭ e assim por diante. Diga as notas em voz alta.
  2. Quatro minutos: o ii–V–I em três tonalidades. Hoje C, F e B♭; amanhã E♭, A♭ e D♭; depois G♭, B, E; depois A, D, G. Quatro dias, todas as 12 tonalidades.
  3. Dois minutos: o ritmo Charleston. O mesmo ii–V–I com metrônomo ou playback a 80, mão esquerda curta.
  4. Dois minutos: um chorus do blues em F, só a mão esquerda, depois com uma linha simples na mão direita.

Vá devagar o bastante para nunca parar. Um ii–V–I tocado no tempo a 60 ensina mais do que um tocado a 120 com pausas.

Os erros que eu mais ouço

Perguntas dos alunos

E se eu tocar sozinho, sem baixista?

As duas notas continuam funcionando, e o ouvido completa o resto. Quando quiser um som mais cheio, acrescente a fundamental embaixo. Isso é um passo posterior; primeiro faça as duas notas andarem com fluidez.

Qual mão toca as notas-guia?

A mão esquerda, para que a direita fique livre para a melodia ou um solo.

Posso acrescentar mais notas?

Pode, mais tarde. A 9ª, a 13ª e as outras cores ficam por cima das notas-guia. Notas de cor só soam bem sobre um esqueleto sólido.

As notas-guia funcionam em qualquer música?

Em quase todo standard. As mesmas duas notas funcionam numa balada, numa bossa nova ou num bebop rápido; só o ritmo muda.

O próximo passo

Quando as duas notas estiverem fáceis nas 12 tonalidades, experimente cinco ritmos de comping para a mão esquerda e toque uma música inteira: “Autumn Leaves” é feita quase só de ii–V–Is. Depois vêm o exercício de voicings de ii–V–I e os voicings sem fundamental na mão esquerda, que dão o som do piano jazz moderno.

Para ouvir

Ouça a mão esquerda do pianista por trás dos solistas: acordes curtos e simples, que deixam a música respirar.

  1. “Tenor Madness”, Sonny Rollins · Tenor Madness (1956): Red Garland, piano
  2. “St. Thomas”, Sonny Rollins · Saxophone Colossus (1956): Tommy Flanagan, piano
  3. “If I Were a Bell”, Miles Davis Quintet · Relaxin’ (1956): Red Garland, piano
  4. “Blue Train”, John Coltrane · Blue Train (1957): Kenny Drew, piano
  5. “All Blues”, Miles Davis · Kind of Blue (1959): Bill Evans, piano
  6. “Walkin’”, Miles Davis · Walkin’ (1954): Horace Silver, piano
  7. “Mr. P.C.”, John Coltrane · Giant Steps (1959): Tommy Flanagan, piano
  8. “Cool Struttin’”, Sonny Clark · Cool Struttin’ (1958): Sonny Clark, piano
  9. “Tune Up”, Miles Davis Quintet · Cookin’ (1956): Red Garland, piano
  10. “Soul Station”, Hank Mobley · Soul Station (1960): Wynton Kelly, piano

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